O legado do investimento social para próximas décadas

maio 12, 2025

Fonte: GIFE

Que tipo de atuação a filantropia e o investimento social privado têm desenvolvido? Que contribuição pretendem oferecer para uma transformação concreta da sociedade brasileira? A plenária de encerramento do 13º Congresso GIFE aprofundou o debate e apontou demandas realistas para o setor

A plenária de encerramento do 13º Congresso GIFE trouxe uma reflexão necessária: o que será do investimento social privado (ISP) e da filantropia nos próximos trinta anos se não forem capazes de desconcentrar poder, conhecimento e riqueza em um país eminentemente desigual? É urgente avaliar se o legado da filantropia será, de fato, a construção de um país mais equitativo, a partir de uma atuação sistêmica, estratégica e eficaz.

O debate foi mediado por Graci Selaimen, do Instituto Toriba, e contou com a participação de pesquisadores e atores. Logo de início, uma quebra de protocolo: o anúncio do falecimento de dois jovens da periferia e participantes no Instituto Pensando Bem, vítimas de confrontos que assolam a cidade de Fortaleza (CE). O luto partilhado com o público reafirmou a urgência de se tratar a filantropia como ferramenta de transformação real, e não apenas de manutenção do status quo.

Ticiana Rolim, fundadora e presidente da Somos Um, desencadeou aplausos do público com fala veemente: “precisamos questionar o que nos traz até aqui hoje. Ainda tem pessoas com fome, ainda tem gente que precisa aguentar um trabalho altamente exploratório por falta de opção. Ou questionamos o sistema, ou questionamos a nossa humanidade”.

Para ela, a filantropia precisa funcionar como um funil, que reúna e conecte soluções locais, inovação e políticas públicas. “Plantamos um milhão de árvores com filantropia, mas destruímos a floresta amazônica com bolsas de investimento”, contrastou. Ticiana ainda chamou a atenção para a transferência de riqueza entre gerações que está em curso. A estimativa, segundo ela, é que, nos próximos cinco anos, cerca de 100 trilhões de dólares sejam transmitidos de uma geração para outra, sendo um terço desse montante para mulheres

A partir de outro ponto de vista, Jessica Sklair, pesquisadora na área de antropologia, recuperou a história da filantropia no Brasil e avaliou o crescimento do setor desde a edição de 2010 do Congresso GIFE até o presente momento. Para ela, o campo tem muito a melhorar, mas já conta com importantes avanços: “agora temos diversidade e discussões que antes não apareciam”.

Jessica defendeu, também, que é indispensável falar sobre o capitalismo. E, para isso, explanou a necessidade da ação individual, empresarial e governamental, aliada às questões de opressões históricas, como as de gênero: “o que a gente faz com uma mão, com uma empresa, com políticas na sociedade. E tem que pensar em como alinhar isso com a mulher”.

Para garantir práticas que reconheçam e incluam a existência das várias identidades, Giovanni Harvey, diretor-executivo do Fundo Baobá e conselheiro do GIFE, reforçou a relevância de se construir pontes sólidas entre a filantropia, o ISP e a sociedade civil. Ele propôs, ainda, que metas reais sejam traçadas para as próximas décadas e que a filantropia compreenda as demandas daqueles que são alcançados por ela. “A filantropia ainda é muito mais pautada nas necessidades de quem doa do que nas necessidades de quem recebe”, reforçou Harvey, em fala ovacionada pela plateia.

A mescla entre democracia, educação, tecnologia e a interdependência entre as pessoas pautou a fala de Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú – também  conselheiro do GIFE. Segundo ele, uma ética da interdependência faz com que “o outro e eu precisemos simbolicamente um do outro”, refletindo sobre a importância de um desenvolvimento estruturado coletivamente, de maneira complexa.

Ao agradecer aos participantes pelo debate em torno das percepções, enfrentamentos e oportunidades do setor, Inês Lafer, presidente do Conselho de Governança do GIFE, afirmou que se faz necessário “dar nome às coisas para poder identificá-las”. Já Cássio França, secretário-geral do GIFE, assegurou: “não nos interessa um Congresso somente da filantropia, nos interessa um evento com toda a sociedade civil”. A plenária se encerrou com um espetáculo de música cearense do grupo Pifarada Urbana, que transitou entre a plateia e mostrou a potência criativa do Ceará.

Estratégias baseadas em dados: o caminho para combater a pobreza multidimensional

Fonte: GIFE

A importância da criação de estratégias baseadas em dados que englobam a identificação e caracterização dos indivíduos e comunidades para a geração de resultados efetivos

A mesa Pobreza multidimensional e a importância de compreender, medir e monitorar resultados para uma ação mais eticamente integrada, realizada durante o 13º Congresso GIFE, reuniu especialistas que representam três índices de monitoramento para além da renda. A ideia foi compreender que a pobreza possui diferentes dimensões que precisam ser consideradas no seu monitoramento e, principalmente, no seu combate.

Conduzido por Andreia Andrade, diretora-executiva da Fundação Vale, o propósito do debate foi sinalizar a importância de compreender a potência dos dados para que cada um pudesse levar a seus territórios e fazer seu uso ético. Andreia reforçou a complexidade dos contextos que precisam de atenção na construção de projetos e estratégias para que pudessem gerar resultados reais para as comunidades. “Estamos aqui para fortalecer as políticas públicas e conseguir fazer toda a construção desse contexto, híbrido, tão cheio de complexidade, para que possam ter sustentabilidade e manutenção para alcançar resultados positivos”, afirmou.

Tratando dessas dimensões, Mário Volpi, coordenador do Programa de Desenvolvimento e Participação de Adolescentes e Jovens do UNICEF no Brasil e líder da iniciativa Selo UNICEF, trouxe a perspectiva sobre os direitos da criança e do adolescente atrelada à importância de se entender as diferentes realidades e como isso muda a forma de efetivamente impactar. “Para garantir que o país avance na redução das desigualdades, é preciso enfrentar as diferentes dimensões da pobreza, mas entender que as diferentes dimensões incidem de maneira diferente nas diversas populações”, indicou.

Ainda nesse sentido, ele enfatizou a necessidade de sairmos do técnico, focando em comunicar de maneira a mobilizar as pessoas. “Que o monitoramento não seja apenas tecnicista, mas que ele convoque a sociedade a fazer mudanças importantes no curso”, projetou. 

Corroborando com ele, Mariana Peixoto, coordenadora-geral no Departamento de Monitoramento e Avaliação da SAGICAD/MDS, expôs que os indicadores devem ser voltados para identificação e caracterização da população, que precisam de um olhar mais atento às suas necessidades e às dimensões dessa necessidade, para que seja capaz de se criar ações e políticas realmente eficazes. Segundo ela, é através dos dados que se pode priorizar quem enfrenta mais privações. “Medir não são apenas números, é reconhecer as pessoas por inteiro e assegurar que ninguém fique invisível”, avaliou.

Para consolidar o olhar sobre a importância da medição através de uma lente ampla sobre o contexto, Sérgio Marangoni, um dos coordenadores do Índice de Progresso Social Brasil e consultor do Imazon, tratou de como a identificação de dificuldades e desafios através de dados podem nortear ações e estratégias e avaliar a eficiência dos resultados.

Segundo ele,  “o problema existe, ele está aqui e ele está tendo uma evolução ou um decréscimo para essa solução”, reforçando o valor da construção de ações integradas entre diferentes setores. “Os indicadores não vão mudar por inércia, mas por um conjunto de ações”, finalizou.

Narrativas florestais: afinal, quais povos estão na base do fortalecimento da bioeconomia?

Fonte: GIFE

Recursos para quem, por quê e para quê: a importância de se comunicar e reconhecer trabalhos de relevância que os povos das florestas já realizam pela biodiversidade no Brasil

Mulheres reunidas para discutir a importância de valorizar territórios e a presença feminina como partes essenciais na preservação da floresta e na propagação de ações sociobioeconômicas, e a partir disso formular meios de captar recursos, uma das maiores empreitadas para as organizações. Esse foi o mote do painel Valor da floresta em pé: bioeconomia e um novo paradigma de desenvolvimento para pessoas, clima e a natureza, que compôs a programação do último dia do 13º Congresso GIFE.

Cleiciane Marques, mobilizadora do Coletivo da Castanha, explanou sobre diversas pautas que permeiam a realidade de cooperativas amazônicas, desde a importância do engajamento de juventudes até a urgência de o investimento social privado (ISP) voltar o olhar para cooperativas que já realizam um trabalho de relevância e precisam de apoio financeiro continuado

“Cuidar do nosso território não precisa de gente de fora para nos representar. A gente sabe falar e sabe fazer muitas coisas dentro do território”, destacou Cleiciane. Ela ainda provocou o ISP a compreender melhor quem está sendo financiado ao apontar que “quem financia a bioeconomia precisa olhar com mais carinho para o que é a sociobioeconomia e o que é a economia destruidora que está disfarçada”, comparou.

O chamado à escuta e participação ativa de territórios também veio à tona. “Não tem como falar de floresta em pé sem considerar a diversidade de ciências presentes na Amazônia. Povos indígenas e ribeirinhos falam disso há muitos anos”, foi o que pontuou Braulina Baniwa, ativista indígena e militante pelos direitos ambientais, territoriais e dos povos originários, ao expor que a “nova economia” que está sendo debatida, na verdade, já existia e era exercida pelos povos amazônidas.

Braulina também convocou a plateia a refletir sobre a origem do que está sendo consumido nos grandes centros urbanos e defendeu que a comunicação se tornou uma importante aliada no processo de denúncia de ameaças. “A tecnologia tem nos possibilitado acompanhar, mesmo não estando naquele território que enfrenta violência”, indicou.

Da mesma maneira, Gabriela Souza, responsável pelas operações da AMAZ, ressaltou o papel da comunicação e evidenciou que esse meio “mostra os casos de sucesso que já estão sendo feitos. Não precisa vir gente de fora, porque já está sendo feito”. Ainda em sua fala, ela convidou o público a fazer um exercício de imaginação e reflexão sobre o que se pensa da Amazônia e quem a ocupa. “Por trás da biodiversidade, há o pressuposto de que são pessoas que mantêm essas florestas.”

Débora Passos, gerente de Gestão de Projetos e Planejamento Estratégico no Instituto Arapyaú e mediadora da mesa, pontuou que “não tem riquezas distribuídas de forma justa e inclusiva passando pela destruição”, além de reforçar que a bioeconomia ainda é um conceito em construção, mas que já avançou muito. Ela propôs que esse conceito fosse compreendido a partir de casos concretos, como os apresentados durante o painel.

Ao ser questionada sobre a facilitação de crédito para produtores, Hélia Félix, responsável técnica da Cacauway, expôs que “é preciso desburocratizar o acesso ao crédito, para que esses agricultores realmente tenham acesso. É diferente o recurso estar disponível, de você conseguir acessar”. Segundo ela, “infelizmente, não há muitas linhas de crédito para a cadeia do cacau. Para o gado talvez seja mais fácil, mas para o cacau é bem restrito”, lamentou. 

A mesa de debate trouxe uma diversidade de narrativas e vivências que mostraram os caminhos que o ISP e a filantropia podem seguir para fortalecer territórios e produtores locais, como pontuou Hélia, ao reforçar: “financiar o que realmente condiz com a Amazônia, com a floresta em pé. Às vezes, o financiamento vai para algo que, em vez de manter a floresta, retira as pessoas de seus lugares de vivência”.

Filantropia é essencial para fortalecer democracia

Fonte: GIFE

Em meio ao contexto de enfraquecimento das instituições, filantropia pode contribuir para ampliar o diálogo e fortalecer poder de atuação de vozes plurais

São tempos nos quais as instituições políticas enfrentam crises de legitimidade e as formas tradicionais de representação são continuamente desafiadas por novas formas de confrontar e acessar poder. Pensando nessas e em outras questões, o painel Perspectivas para o fortalecimento da democracia traçou caminhos para exercer a cidadania e manter a democracia como prática viva no cotidiano do País. O papel da filantropia esteve no centro desse debate.

Cassio França, cientista político e  secretário-Geral do GIFE, mediou o encontro e destacou a importância da sociedade civil para a manutenção da democracia no contexto atual. Ele questionou: “a democracia hoje tem mais amadurecimento do que há 30 anos?”. Flávia Pellegrino, diretora-executiva do Pacto pela Democracia, disse acreditar que, apesar de esse sistema político estar mais robusto em relação aos anos 1990 e 2000, vem mostrando suas falhas, e requer uma população mais organizada e fortalecida. Para ele, isso “evidencia a necessidade de aprofundamento da democracia”.

Já Henrique Frota, advogado e co-diretor da Abong, afirmou crer em uma resposta com meios-termos, uma vez que há tantas camadas na sociedade brasileira. “Nem sim nem não. Acho que os desafios continuam”, ponderou. Ele criticou o que seria uma exclusão da sociedade civil por parte do Estado no processo de formulação de políticas públicas. “Me recuso a pensar que a sociedade civil é acessória do Estado”, lamentou.

Márcia Lima, coordenadora do Afro – Núcleo de Pesquisa sobre Raça, Gênero e Justiça Racial do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), indicou a necessidade de se discutir sobre o machismo, misoginia e racismo na política. O impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016, por exemplo, segundo ela, “foi resultado da misoginia política”, o que afetaria a manutenção de um debate plural e democrático. Ela ressaltou a importância da escuta ativa do governo para com a sociedade civil.

Para Carô Evangelista, cientista política e diretora-executiva do Instituto de Estudos da Religião (ISER), “a religião é um ator novo na discussão da democracia”, especialmente com a influência da bancada evangélica nas decisões de projetos de lei e demais esferas da sociedade. Além disso, apontou o fenômeno da transição da matriz religiosa do Brasil, que está no processo de deixar de ser majoritariamente católica para ficar majoritariamente evangélica e protestante.

Rafael Poço, diretor-executivo do Instituto Galo da Manhã, articula possíveis soluções de como a filantropia pode atuar na manutenção da democracia, que, segundo ele, “é um experimento infinito, mas não pode explodir o laboratório”. Poço disse que a presença de instituições filantrópicas podem contribuir para a democracia brasileira de maneira “segura e sutil”, sem se preocupar com questões partidárias.

As formas propostas seriam o incentivo ao diálogo e ao conflito de ideias no sentido de ampliar o debate e se voltar para a agenda de defesa de direitos humanos. A articulação entre terceiro setor, por meio do Investimento Social Privado (ISP), em conjunto com setores da sociedade civil ampliam possibilidades de melhorias no processo democrático.

Fortalecer autonomia como forma concreta de desconcentrar poder

Fonte: GIFE

Transparência, confiança e autonomia são palavras-chave para buscar a legitimidade das organizações da sociedade civil. A atual conjuntura nos Estados Unidos preocupa o campo, mas é preciso pensar em longo prazo

Um campo que fortaleça a lógica da autonomia e contribua para a legitimidade da atuação em bases sólidas a partir de causas sociais e territórios. Foi esse o chamado à ação da mesa Cenários da sustentabilidade financeira das organizações da sociedade civil e os caminhos para seu fortalecimento, durante o 13º Congresso GIFE.

Para desconcentrar poder, conhecimento e riqueza, pautas do tema da edição do evento neste ano, a filantropia e o investimento social privado (ISP), comprometidos com a realidade social brasileira, precisam ser, na avaliação de Douglas Belchior, gestor do Peregum, “reparatória, distribuidora de poder, constituída a partir do território e antirracista”.

O articulador fez uma analogia com o influenciador digital Luva de Pedreiro, conhecido pelo jargão “Receba!”. Na visão dele, a filantropia e o ISP precisam reconhecer dívidas históricas e se propor a dividir poder, com geração de autonomia. “Devolva!”, provocou. Douglas citou o Fundo Baobá e o Fundo Brasil de Direitos Humanos como exemplos de financiadores tensionadores da lógica tradicional de investimento social privado, ao fortalecer organizações de base e contribuir para processos organizativos.

Na linha da provocação trazida por Douglas, Ana Nascimento, diretora regional para América Latina da Porticus, defendeu que o ISP precisa estar perto dos parceiros, ser transparente e trabalhar com base na confiança. “Isso significa (para as organizações) poder remanejar recursos para atividades centrais, entender quais temas são mais urgentes  no momento.”

Nesse sentido, Fernando Nogueira, diretor-executivo da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), alertou para os perigos de os investimentos pensarem apenas em “eficiência extrema” e “efetividade de atividades e relatórios”. “Tem um lado substantivo, político, idealista que já justifica a existência de qualquer organização e de qualquer iniciativa social”, contrapõe.

Outra prática a ser evitada, segundo Diane Pereira Sousa, associada do Instituto Baixada, é considerar no financiamento que os contextos são iguais e que, portanto, existem soluções iguais para todos. “A gente precisa olhar para as estratégias  dessas organizações. Nossas organizações não podem ser árvores com uma base de concreto na calçada. Elas precisam de liberdade perene e constante para pensar seus territórios.”

Na mesma linha dos demais participantes do painel, a mediadora da mesa, Lais de Figueiredo, advogada e sócia da SBSA, reconheceu que as ações de luta por direitos, construção de políticas públicas e resistência contra injustiças fazem parte do ecossistema das organizações. “A representação institucional em conselhos e comitês requer recursos livres, para não ‘desidratar’ a capacidade institucional de influência, de incidência política”, exemplificou.

Conjuntura dos EUA

Além do debate sobre sustentabilidade financeira das organizações, Ana Nascimento apresentou uma análise breve da crise de direcionamentos de recursos a partir da situação dos Estados Unidos. “Não é a primeira vez que passamos internacionalmente por direcionamentos de recursos e, olhando para o passado recente, vemos pouca efetividade de manutenção dos cortes em longo prazo. Isso significa que a gente não deve reagir pensando no curto prazo”, avaliou.

“A estratégia do medo, de causar conflito na própria sociedade civil é muito eficaz para desmobilizar”, observou Ana Nascimento. “O que a gente precisa, sim, é pensar em estruturas e mecanismos que permitam que a gente navegue nesses processos (de crise) de maneira um pouco mais estável”, complementou.

Quem decide sobre quem recebe? Um retrato da filantropia no Brasil

Fonte: GIFE

Compreender padrões e motivações de pequenos e grandes doadores pode apontar caminhos para a captação de recursos. 

Ao conhecer as realidades das diversas organizações, projetos, práticas e territórios pelo país, parece uma unanimidade a dificuldade em captar recursos. Como fazê-lo? Através de quais mecanismos? O que motiva um doador a destinar verbas a determinada iniciativa? Que expectativas circulam por entre essas transações? As dúvidas são muitas, em meio à certeza de que sem captar fica mais difícil de atuar. O painel Retratos da solidariedade no Brasil: dos grandes filantropos às doações individuais no País, no 13º Congresso GIFE, buscou compreender esse panorama intrincado e essencial para mobilizar o tão almejado financiamento.

Mediadora do debate, Patricia Kunrath, coordenadora de Conhecimento do GIFR, apresentou um panorama dessa prática no Brasil ao compartilhar dados, experiências e tensionamentos sobre quem doa, para quem doa e com que propósito. “[Em] um país onde as organizações da sociedade civil, especialmente as de base periférica, ainda enfrentam barreiras estruturais para acessar a filantropia”, ressaltou.

Gelson Henrique, diretor-executivo da Iniciativa PIPA, se contrapôs à uma visão de que as comunidades são apenas receptoras de ajuda, e não possíveis operadoras do atual sistema nacional em que estamos alocados. De acordo com ele, isso abre possíveis caminhos de transformação: “o que é a filantropia se não for para operar transformação a partir das periferias e com as periferias?”, questionou.

Nesse sentido, Vinicius Barrozo, analista de Valor Social na Globo, destacou o caso das enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, que ele diz considerar um marco recente na mobilização solidária no país, se comparado à pandemia de Covid-19, por exemplo. Ele comentou como apenas um mês de divulgação do desastre ambiental foi necessário para gerar grande adesão nacional. Mas atentou: “queremos estimular uma cultura de doação contínua, e não apenas emergencial. Hoje trabalhamos com 12 causas sociais relevantes no país”.

Inês Lafer, presidente do Conselho de Governança do GIFE, e idealizadora da rede Confluentes, destacou o potencial não mobilizado da população brasileira com alta renda: “Segundo dados da Receita Federal, há 1,5 milhão de pessoas com renda entre 30 mil e 60 mil reais mensais”. E lamentou que essa distribuição não abarque o número total da população brasileira. Para ela, o desafio é construir uma filantropia voltada para causas estratégicas, com foco na transformação estrutural, e não apenas na compensação de desigualdades.

Outro ponto fundamental foi apresentado por Iracema Souza, gerente de Conhecimento e Advocacy do Fundo Agbara: o que a filantropia deve reconhecer o protagonismo negro, e que não é possivel fortalecer a democracia sem fortalecer instituições negras. “Essas organizações estão à frente da luta por equidade racial, saúde, educação e direitos. Mas enfrentamos grandes dificuldades de acesso a financiamento, elaboração de projetos e apoio institucional”, afirmou. 

Marcos Paulo Silveira, pesquisador da Fundação José Luiz Egydio Setúbal, apresentou dados da segunda onda da pesquisa nacional sobre solidariedade no Brasil: “quase 60% das doações monetárias vão para causas locais, e a cultura aparece com apenas 2% da alocação de recursos”. Ele também destacou que muitos grandes doadores não se reconhecem como “filantropos”, o que aponta para uma disputa conceitual e simbólica sobre o próprio sentido da filantropia.

Desconcentrar riquezas no SUS: de que forma investimentos podem reduzir desigualdades e fomentar equidade?

Fonte: GIFE

Especialistas na área de gestão de saúde compartilharam possíveis maneiras de diminuir desigualdades da saúde pública brasileira

O Sistema Único de Saúde (SUS) é considerado referência no mundo. O painel Desconcentrando riquezas com equidade no SUS: os desafios da aplicação de recursos na assistência à saúde, durante o 13º Congresso GIFE, discutiu que de maneira os recursos são alocados na Saúde brasileira e como garantir que contribuam para o direito à saúde no país.

Mediadora da mesa, Evelyn Santos, Gerente de Investimento e Impacto Social na Umane e mestre em Alimentação, Nutrição e Saúde  pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), questionou: “como podemos trazer novas práticas e mudar esse cenário (do destinamento de recursos na saúde)?”. Para Pedro Marin, Coordenador do Programa Planejamento e Orçamento da Fundação Tide Setubal, as emendas parlamentares possuem grande papel na injeção de recursos para a manutenção de equipamentos da saúde. Porém, ressalta o pesquisador, a maioria das emendas não atingem onde está parte considerável da população brasileira.

Conforme Marin, “quase metade da população ainda reside em municípios com cobertura inferior a 80%”. De acordo com ele, a distribuição de recursos vai contra o princípio da equidade, segundo o site PenseSUS, da Fiocruz, que prevê o atendimento do indivíduo de acordo com suas necessidades e busca reconhecer diferenças nas condições de vida e saúde das pessoas.

Marcella Semente, pesquisadora do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), evidencia seu estudo sobre a injeção de recursos na saúde em emendas parlamentares e constatou a queda da quantidade destas emendas. “A maior parte das emendas parlamentares vinha de investimento público, agora são 10%”. O estudo também evidencia a previsão de retração importante da quantidade de recursos para 2027, com queda prevista de R$ 86 bilhões.

A pesquisadora também explica que o SUS possui alta capilaridade, com diversos braços nos municípios brasileiros. “Políticas que funcionam em um local não funcionam em outro”, aponta. Ela destaca a necessidade da criação de um ponto de vista qualitativo e territorial para os gestores da saúde. Para Marcella, é necessário o esforço de discutir, disseminar e pensar em formas de colaboração e investimento para a saúde brasileira.

De acordo com Blenda Pereira, assessora técnica para Economia da Saúde do Conasems, “uma política, para ser materializada, precisa estar dentro da governança do SUS”. A gestora em saúde complementa que 60% dos investimentos de saúde são retirados dos estados e municípios, e os 40% restantes vêm dos cofres federais. Blenda mostra que os investimentos nesta área são tripartites: federal, estadual e municipal, onde os dois últimos, na prática, têm mais perenidade quanto aos recursos injetados. 

Anna Andreotti, analista sênior de projetos na Fundação José Luiz Egydio Setúbal, na área de grantmaking e advocacy, por sua vez, acredita que “não se deve se falar de política social sem falar de como é financiada”. Por conta disso, ressalta a importância de democratizar o conhecimento à população geral e, assim, gerar a descentralização do saber.

O Ceará como propulsor de parcerias de impacto e os desafios das desigualdades

Fonte: GIFE

Ao traçar um panorama das singularidades locais, o Ceará é visto como estado catalisador de iniciativas entre setores. Ainda enfrenta, porém, disparidades de investimento entre regiões

O fato de o 13º Congresso GIFE ter sido sediado em Fortaleza (CE), após quinze anos com base na cidade de São Paulo, pode ser visto como uma boa ocasião para se perceber e discutir que tipo de particularidades cada região do País apresenta em seu panorama de filantropia e investimento social privado (ISP). No painel O estado da arte da filantropia e ecossistema de impacto no Ceará – Fortalezas e desafios, o estado figurou como o centro da discussão, apresentando suas experiências exitosas e possíveis frentes de aprimoramento para que emerjam iniciativas inovadoras e atores cada vez mais engajados.

Mediador do debate, Marcos Tardin, gerente-geral da Fundação Demócrito Rocha, apresentou o Ceará como uma “enzima”. As enzimas são catalisadores biológicos, que aceleram reações químicas no organismo dos seres vivos. Compreendendo essa metáfora, de acordo com ele, o estado funcionaria como um propulsor da atividade na região Nordeste, promovendo a conexão entre atores e organizações, e oferecendo condições para se formular e realizar projetos de impacto. “A gente junta muitos atores diferentes de uma maneira que não é muito comum em outros locais do país”, afirmou.

Nesse sentido, Viviane Mansi, diretora de Relações Corporativas da Diageo, destacou  que uma boa maneira de pensar e mensurar o impacto dessas ações é sua capacidade de transcender os muros das organizações, atuar coletivamente. “A gente amplia fundamentalmente por meio de parcerias”, apontou.

Um exemplo é o Pacto Contra a Fome, uma parceria com o Governo do Estado do Ceará, apresentado por Rafaela Vieira, gerente de Políticas Públicas do programa. Segundo ela, sem a comunicação entre os setores público e privado, isso não seria possível. “Sem o diálogo, a gente não vai resolver nenhum grande problema no nosso país”, constatou.

Bia Fiuza, diretora institucional do Instituto de Música Jacques Klein (IMJK) e conselheira do GIFE, ressaltou a importância de se depreender as singularidades de cada contexto para a construção de projetos de maior impacto. “Se não houver escuta, se não houver compreensão do território, se não houver humildade, colaboração e fizer junto, as coisas não acontecem.”. Ela descreveu o Ceará como um estado com “calor em todos os sentidos”, e destacou a importância desse fator para as relações humanas.

Como participante e assistente de educação educativa do Instituto Jacques Klein, Seanne Cristina testemunhou sobre o impacto das ações na organização em sua vida. Ela contou que ingressou aos 19 anos de idade no instituto, como auxiliar de serviços gerais, e já foi alcançada em diversas outras frentes de atuação. “Nesse tempo em que eu estava no instituto, consegui estudar, para poder ter novos conhecimentos. E, entrando no instituto como auxiliar de serviços gerais, eu não imaginava que lá dentro ia me enxergar em outros espaços”, narrou.

Mônica Fernandes, fundadora da consultoria Empoderar-Te, criticou a concentração de serviços dinamizadores na Regional 2 de Fortaleza, que reúne bairros nobres como Aldeota, De Lourdes, Dionísio Torres, Joaquim Távora, Meireles, Mucuripe e Papicu. Segundo ela, locais de maior impacto e mais volumosos faturamentos. Em contraste, a maioria dos negócios se encontraria em bairros da periferia da capital. Ela criticou essa discrepância: “A gente conseguiu fazer um diagnóstico nesse mapeamento e percebeu que os dinamizadores se concentram aqui, na região de Regional 2, e os negócios estão espalhados na periferia. (…) Precisamos de mais dinamizadores fortalecidos em todas as regionais de Fortaleza”, observou.

“Sem memória, não há cultura”: meios de a filantropia apoiar ações comprometidas com a valorização da memória coletiva no Brasil

Fonte: GIFE

Não abrir espaço ao esquecimento, dar voz a povos historicamente silenciados e reescrever a história a partir de perspectivas libertárias são algumas maneiras de a filantropia apoiar o fortalecimento da memória no Brasil

Em tempos de avanço de tentativas de enfraquecimento da democracia no Brasil, a filantropia pode assumir a missão de apoiar projetos e organizações comprometidas com a preservação e valorização das memórias coletivas, em especial aquelas ameaçadas pelas estruturas de poder. No segundo dia de programação do 13º Congresso GIFE, o painel Memória no reconhecimento de identidades políticas e dos valores democráticos refletiu sobre a memória como ferramenta política e dimensão essencial para a construção da cidadania.

Para Ana Pato, pesquisadora e diretora técnica do Memorial da Resistência de São Paulo, a discussão sobre a memória é uma “pauta muito cara” e uma política de reparação, especialmente ao falar dos povos originários e das consequências da Ditadura Militar no País.

Maria Marighella, atriz e presidenta da Funarte, falou sobre o início de sua trajetória na política, ainda na adolescência, em novembro de 1989. Ela exibiu um vídeo no qual discursava, em ato que comemorava a morte de seu avô, o guerrilheiro Carlos Marighella, assassinado pela ditadura. Maria comentou sobre a repercussão do filme “Ainda estou aqui”, dirigido por Walter Salles e ganhador do Oscar na categoria “Melhor filme estrangeiro”. Para a atriz, pouco se falava sobre memória pelo chamado “brasileiro médio”, o esquecimento seria um forte traço da cultura brasileira, e o filme seria uma “marca” desse aspecto.

Voltada à pauta dos povos originários, Juliana Alves, cacique da comunidade Jenipapo-Kanindé e secretária dos povos indígenas do estado do Ceará afirmou: “sem memória, não há cultura e, sem cultura, não há diversidade”. Ela destacou a importância de debater a memória, pensar coletivamente e buscar alternativas de transmissão das memórias dos povos originários, quilombolas e outras populações tradicionais. Ela defendeu que haja “orçamento e condição para implementar políticas públicas”, além de grupos de trabalho direcionados às pautas destes povos, especialmente para guardar registros dos povos.

Rodrigo Antônio, cineasta e diretor de formação da Taturana, por sua vez, tratou de sua experiência enquanto pessoa negra e amazônica. Para ele, “o corpo carrega processos históricos” e defendeu que haja um entendimento para se propor novas formas de pertencimento, até mesmo ao escrever histórias de povos antes silenciados.

Já Sérgio Fausto, diretor-geral da Fundação FHC, abordou sobre a deliberação no apagamento de registros históricos ligados à escravidão e ao regime militar. Ele defendeu o uso do pluralismo ao elaborar registros históricos. “Ao fazer memória, não existe uma história oficial que dê conta de todos os aspectos relevantes a um determinado período”, explicou.

“Não é fácil, mas é lindo”: os 25 anos do Fundo Elas+ e a luta por uma filantropia viva, justa e coletiva

Fonte: GIFE

Em um sistema que historicamente exclui, mulheres e lideranças diversas constroem novos caminhos de justiça e poder compartilhado. Mais do que resistir, elas transformam estruturas para um futuro coletivo é possível

Em um mundo “feito de homens para homens”, temos mulheres que resistem e persistem na abertura de caminhos não apenas para si, mas para todas, todos e todes que estão vindo junto. Durante a mesa Fundo Elas 25 anos – Mais de 25 anos tecendo filantropias de justiça de gênero e social na América Latina, durante 13º Congresso GIFE, mais do que contar uma trajetória, a discussão permitiu olhar para o passado que nos trouxe até aqui, para o presente que construímos e para o futuro que sonhamos.

Mediadora da mesa, Thaís Nascimento, coordenadora de Programas no GIFE e responsável pela pauta de equidade racial, iniciou o debate com uma declaração potente: “captação de recursos é redistribuir poder”. Ela reforçou que não há democracia plena enquanto povos indígenas e quilombolas seguirem à margem. Mais do que ocupar cargos, é preciso que essas lideranças tenham a caneta na mão: “nós queremos desenhar as estratégias, nós temos a capacidade, é preciso falar sobre a potência das mulheres, dos povos indígenas, quilombolas para construir soluções”.

Rebecca Raposo, uma das fundadoras do GIFE, contou os desafios de se falar do investimento social privado (ISP) quando a filantropia era conhecida na mídia como “pilantropia”, mostrando que a grande mudança é feita de pequenas mutações: “a caminho da transformação, há muita evolução”.

Diante desse contexto, Amalia Fischer,  co-fundadora do ELAS+ Doar para Transformar, não apenas provocou e inspirou, mas se tornou porta-voz para a pauta. Ela defendeu a importância de se alcançar os filantropos que não dialogam diretamente com o feminino e de mobilizar recursos através da ética: “o que você faria com 1 milhão de dólares de uma empresa que polui e mata?.”

María Paz Becerra, diretora-executiva do Fondo Alquimia Chilepaz, reforçou a necessidade de se ter em conta as demandas levantadas pelos próprios movimentos a respeito de temas relevantes e da visão crítica da sociedade. “Podemos não pensar igual, mas precisamos fazer um trabalho em conjunto”, convocou.

Além disso, Erix Cortes, transfeminista e antirracista, antropólogue e defensore da filantropia, tratou da importância de reconhecer a necessidade e possibilidade de gerar mudanças: “Mudar as estruturas, reconhecer o sistema como um organismo vivo, e não como uma hierarquia”.