Fonte: GIFE
Que tipo de atuação a filantropia e o investimento social privado têm desenvolvido? Que contribuição pretendem oferecer para uma transformação concreta da sociedade brasileira? A plenária de encerramento do 13º Congresso GIFE aprofundou o debate e apontou demandas realistas para o setor
A plenária de encerramento do 13º Congresso GIFE trouxe uma reflexão necessária: o que será do investimento social privado (ISP) e da filantropia nos próximos trinta anos se não forem capazes de desconcentrar poder, conhecimento e riqueza em um país eminentemente desigual? É urgente avaliar se o legado da filantropia será, de fato, a construção de um país mais equitativo, a partir de uma atuação sistêmica, estratégica e eficaz.
O debate foi mediado por Graci Selaimen, do Instituto Toriba, e contou com a participação de pesquisadores e atores. Logo de início, uma quebra de protocolo: o anúncio do falecimento de dois jovens da periferia e participantes no Instituto Pensando Bem, vítimas de confrontos que assolam a cidade de Fortaleza (CE). O luto partilhado com o público reafirmou a urgência de se tratar a filantropia como ferramenta de transformação real, e não apenas de manutenção do status quo.
Ticiana Rolim, fundadora e presidente da Somos Um, desencadeou aplausos do público com fala veemente: “precisamos questionar o que nos traz até aqui hoje. Ainda tem pessoas com fome, ainda tem gente que precisa aguentar um trabalho altamente exploratório por falta de opção. Ou questionamos o sistema, ou questionamos a nossa humanidade”.
Para ela, a filantropia precisa funcionar como um funil, que reúna e conecte soluções locais, inovação e políticas públicas. “Plantamos um milhão de árvores com filantropia, mas destruímos a floresta amazônica com bolsas de investimento”, contrastou. Ticiana ainda chamou a atenção para a transferência de riqueza entre gerações que está em curso. A estimativa, segundo ela, é que, nos próximos cinco anos, cerca de 100 trilhões de dólares sejam transmitidos de uma geração para outra, sendo um terço desse montante para mulheres.
A partir de outro ponto de vista, Jessica Sklair, pesquisadora na área de antropologia, recuperou a história da filantropia no Brasil e avaliou o crescimento do setor desde a edição de 2010 do Congresso GIFE até o presente momento. Para ela, o campo tem muito a melhorar, mas já conta com importantes avanços: “agora temos diversidade e discussões que antes não apareciam”.
Jessica defendeu, também, que é indispensável falar sobre o capitalismo. E, para isso, explanou a necessidade da ação individual, empresarial e governamental, aliada às questões de opressões históricas, como as de gênero: “o que a gente faz com uma mão, com uma empresa, com políticas na sociedade. E tem que pensar em como alinhar isso com a mulher”.
Para garantir práticas que reconheçam e incluam a existência das várias identidades, Giovanni Harvey, diretor-executivo do Fundo Baobá e conselheiro do GIFE, reforçou a relevância de se construir pontes sólidas entre a filantropia, o ISP e a sociedade civil. Ele propôs, ainda, que metas reais sejam traçadas para as próximas décadas e que a filantropia compreenda as demandas daqueles que são alcançados por ela. “A filantropia ainda é muito mais pautada nas necessidades de quem doa do que nas necessidades de quem recebe”, reforçou Harvey, em fala ovacionada pela plateia.
A mescla entre democracia, educação, tecnologia e a interdependência entre as pessoas pautou a fala de Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú – também conselheiro do GIFE. Segundo ele, uma ética da interdependência faz com que “o outro e eu precisemos simbolicamente um do outro”, refletindo sobre a importância de um desenvolvimento estruturado coletivamente, de maneira complexa.
Ao agradecer aos participantes pelo debate em torno das percepções, enfrentamentos e oportunidades do setor, Inês Lafer, presidente do Conselho de Governança do GIFE, afirmou que se faz necessário “dar nome às coisas para poder identificá-las”. Já Cássio França, secretário-geral do GIFE, assegurou: “não nos interessa um Congresso somente da filantropia, nos interessa um evento com toda a sociedade civil”. A plenária se encerrou com um espetáculo de música cearense do grupo Pifarada Urbana, que transitou entre a plateia e mostrou a potência criativa do Ceará.