Fortalecer autonomia como forma concreta de desconcentrar poder

maio 12, 2025

Fonte: GIFE

Transparência, confiança e autonomia são palavras-chave para buscar a legitimidade das organizações da sociedade civil. A atual conjuntura nos Estados Unidos preocupa o campo, mas é preciso pensar em longo prazo

Um campo que fortaleça a lógica da autonomia e contribua para a legitimidade da atuação em bases sólidas a partir de causas sociais e territórios. Foi esse o chamado à ação da mesa Cenários da sustentabilidade financeira das organizações da sociedade civil e os caminhos para seu fortalecimento, durante o 13º Congresso GIFE.

Para desconcentrar poder, conhecimento e riqueza, pautas do tema da edição do evento neste ano, a filantropia e o investimento social privado (ISP), comprometidos com a realidade social brasileira, precisam ser, na avaliação de Douglas Belchior, gestor do Peregum, “reparatória, distribuidora de poder, constituída a partir do território e antirracista”.

O articulador fez uma analogia com o influenciador digital Luva de Pedreiro, conhecido pelo jargão “Receba!”. Na visão dele, a filantropia e o ISP precisam reconhecer dívidas históricas e se propor a dividir poder, com geração de autonomia. “Devolva!”, provocou. Douglas citou o Fundo Baobá e o Fundo Brasil de Direitos Humanos como exemplos de financiadores tensionadores da lógica tradicional de investimento social privado, ao fortalecer organizações de base e contribuir para processos organizativos.

Na linha da provocação trazida por Douglas, Ana Nascimento, diretora regional para América Latina da Porticus, defendeu que o ISP precisa estar perto dos parceiros, ser transparente e trabalhar com base na confiança. “Isso significa (para as organizações) poder remanejar recursos para atividades centrais, entender quais temas são mais urgentes  no momento.”

Nesse sentido, Fernando Nogueira, diretor-executivo da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), alertou para os perigos de os investimentos pensarem apenas em “eficiência extrema” e “efetividade de atividades e relatórios”. “Tem um lado substantivo, político, idealista que já justifica a existência de qualquer organização e de qualquer iniciativa social”, contrapõe.

Outra prática a ser evitada, segundo Diane Pereira Sousa, associada do Instituto Baixada, é considerar no financiamento que os contextos são iguais e que, portanto, existem soluções iguais para todos. “A gente precisa olhar para as estratégias  dessas organizações. Nossas organizações não podem ser árvores com uma base de concreto na calçada. Elas precisam de liberdade perene e constante para pensar seus territórios.”

Na mesma linha dos demais participantes do painel, a mediadora da mesa, Lais de Figueiredo, advogada e sócia da SBSA, reconheceu que as ações de luta por direitos, construção de políticas públicas e resistência contra injustiças fazem parte do ecossistema das organizações. “A representação institucional em conselhos e comitês requer recursos livres, para não ‘desidratar’ a capacidade institucional de influência, de incidência política”, exemplificou.

Conjuntura dos EUA

Além do debate sobre sustentabilidade financeira das organizações, Ana Nascimento apresentou uma análise breve da crise de direcionamentos de recursos a partir da situação dos Estados Unidos. “Não é a primeira vez que passamos internacionalmente por direcionamentos de recursos e, olhando para o passado recente, vemos pouca efetividade de manutenção dos cortes em longo prazo. Isso significa que a gente não deve reagir pensando no curto prazo”, avaliou.

“A estratégia do medo, de causar conflito na própria sociedade civil é muito eficaz para desmobilizar”, observou Ana Nascimento. “O que a gente precisa, sim, é pensar em estruturas e mecanismos que permitam que a gente navegue nesses processos (de crise) de maneira um pouco mais estável”, complementou.

//