Para continuar a gerar impacto social, filantropia e organizações da sociedade civil deverão se adaptar aos impactos da reforma tributária

maio 9, 2025

Fonte: GIFE

A expectativa é que a reforma fiscal seja uma realidade já em 2026, e as mudanças tributárias no país deverão exigir ajustes orçamentários, mas também operacionais das organizações

Com a reforma tributária no Brasil, o investimento social privado (ISP) e as organizações da sociedade civil (OSCs) terão de repensar as formas de utilização de incentivos fiscais e isenções tributárias para alocar recursos em causas de interesse público. No segundo dia do 13º Congresso GIFE, o painel Impactos da reforma tributária nas OSCs e no ISP discutiu como se adaptar às mudanças fiscais com ajustes orçamentários e estratégias de captação e garantir a continuidade de projetos.

Mediador do debate, Eduardo Szazi, sócio emérito do GIFE, destacou o papel histórico dos tributos como ferramenta de redistribuição, o que, segundo ele, representa um instrumento fundamental do Estado para desconcentrar riquezas. “E o incentivo fiscal, nesse sentido, é uma forma de permitir que parte desse recurso público seja destinado a projetos de interesse coletivo”, explicou.

Já Priscila Pasqualin, diretora-executiva do Instituto Spiralis, chamou atenção para os riscos que a nova legislação impõe à continuidade dos incentivos fiscais. “Agora existe uma lei que impede a prorrogação de benefícios se não houver superávit primário”, indica. Segundo ela, tal medida representaria uma ameaça direta aos recursos incentivados em áreas como cultura, esporte e infância. “Estamos falando de tributo destinado, não de filantropia direta: o cidadão escolhe onde parte do que pagaria ao Estado será investido.”

Para Nailton Cazumbá, especialista em contabilidade das Organizações do Terceiro Setor, os desafios não se restringem ao setor financeiro, mas exigem também adaptações operacionais. “A reforma vai afetar a sustentabilidade, o planejamento financeiro e a estrutura de custos. Organizações terão que se reestruturar para entender de onde vêm suas receitas e despesas, se são imunes ou isentas, e como os novos tributos impactam sua operação. A mudança exigirá autoconhecimento institucional”, elencou.

Apesar do alerta para o novo cenário, Flávia Regina, sócia do Mattos Filho e officer e co-chair do Comitê Pro Bono no IBA e membro do Conselho Fiscal do GIFE, destaca pontos positivos da reforma fiscal para as OSCs, no sentido de repensar formas de atuação. “A reforma vem para ficar e, apesar dos riscos, há avanços importantes. É hora de olhar para dentro, mapear nossas operações e dialogar com contadores e juristas para entender o impacto real. Isso também é oportunidade de fortalecimento.”

Em meio a essas novas relações fiscais que se desenham, Márcia Kalvon, diretora de Filantropia e Advocacy na Fundação José Luiz Setúbal, reforçou a importância do repasse direto de recursos como estratégia de desconcentração de poder. “Doar é desconcentrar poder. E, mais do que nunca, precisamos pensar em sustentabilidade de longo prazo, criando fundos patrimoniais que deem segurança às organizações e reconheçam que transformação social não acontece da noite para o dia”, defendeu.

A mesa reforçou que a reforma tributária além de uma realidade para 2026, é também um chamado para as organizações repensarem suas estruturas, identificando o nível de pacificação tributária. E, principalmente, reconhecer as reais condições de suas receitas e despesas para aumentar patrimônio e para investir em sua estrutura interna. O objetivo é cumprir a legislação de modo que continue a gerar impacto social.

Parceria entre educação e filantropia é ponto-chave para enfrentar crise climática

Fonte: GIFE

As mudanças climáticas impuseram nova ótica para problemas em setores como educação, inclusão produtiva e cooperativismo. Cenário aponta novos desafios para o setor de filantropia e ISP

O papel das escolas no enfrentamento dos impactos das emergências climáticas e como fomentador do debate para toda a sociedade foi o tema do painel Ações emergenciais – O apoio da sociedade civil organizada na reconstrução após crises climáticas, no segundo dia de programação do 13º Congresso GIFE. A partir do exemplo das enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, o debate tratou de experiências, aprendizados e perspectivas do enfrentamento ao atual contexto ambiental.

Nesse cenário, de acordo com Bianca Mesquita, diretora-executiva do Equidade.info, um total de 77% de gestores escolares afirmaram não possuir um plano emergencial para enfrentar situações relacionadas à crise climática. O dado foi levantado em pesquisa realizada pela própria organização e reflete uma lacuna para uma demanda essencial da atualidade. “Falta informação específica para tratar essa temática nas escolas”, observou.

Com esse propósito, Marcelo Jeronimo, subsecretário da Educação Básica da Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul, apresentou o Programa Escola Resiliente, que ressalta a centralidade desses espaços para a construção de sociedades mais resilientes às tragédias, por meio de ações como inclusão do tema da educação climática. “É importante o debate sobre justiça ambiental e equidade racial. E esse debate precisa ser feito nas escolas”, justificou.

Foi com base justamente  no acontecimento das enchentes e toda a sua repercussão social e econômica que atingiu o território e a população sul-rio-grandense que o setor da Educação se propôs a aprender a olhar para formas de reconstrução e resiliência como uma necessidade premente da sociedade atual. Quem contou foi Fabiana Prianti, líder da B3 Social. “Isso para entender quais desenhos temos para o futuro”, explicou. Mas ela faz uma ponderação: “ainda é um tema novo para todo mundo”.

Ainda nesse contexto, Keyla Rodrigues, gerente de Responsabilidade Social da Fundação Sicredi, contou que as cooperativas desempenharam papel fundamental para decidir sobre o direcionamento de recursos durante essa tragédia de 2024, a partir das urgências locais, que variaram muito, de um dia para o outro. Ela traçou uma relação fundamental entre as escolas e os profissionais da Educação com as necessidades práticas das comunidades. “Nos nossos projetos, precisamos do engajamento do professor, da rede familiar. Estamos falando de cooperação”, apresentou.

Na mesma linha de atuação territorial, Luis Fernando Guggenberger, diretor-presidente do Instituto Ultra, contou sobre a importância de conversar com secretários de Estado, professores e, só então, propor um plano de ações para enfrentar os impactos das tragédias. “Discutimos questões como adaptação climática, a partir da realidade local, e assim preparar melhor os municípios”, sugeriu.

Desenvolvimento institucional de OSCs exige confiança, escuta e flexibilidade

Fonte: GIFE

O fortalecimento das organizações da sociedade civil (OSCs) por meio do Investimento Social Privado (ISP) envolve confiança, coordenação e colaboração

A mesa Diretrizes para promover o desenvolvimento institucional de organizações da sociedade civil, realizada no primeiro dia do 13º Congresso GIFE, nesta quarta-feira (7), destacou os caminhos para fortalecer as organizações da sociedade civil (OSCs) por meio do Investimento Social Privado (ISP). O debate teve como base a cartilha lançada pelo Instituto ACP, que apresenta seis diretrizes voltadas tanto às organizações doadoras quanto às que captam recursos. São elas: intencionalidade, dinheiro, confiança, reflexão e colaboração, tempo e pessoas.

As assimetrias entre financiadores e organizações foram pontuadas por Juliana Maia Victoriano, advogada do Instituto Ibirapitanga, que destacou: “Ao mesmo tempo que os financiadores são necessários, não há confiança; há uma rigidez muito grande no formato do apoio”. Segundo ela, esse modelo engessa as OSCs e as afasta de suas prioridades.

Já Alexandre Magno, gerente do IPAM, criticou a lógica importada do setor e defendeu mais articulação: “Fortalecer a sociedade civil exige maior coordenação entre as organizações, para que a competição não se sobreponha à colaboração”. Raul Torres, diretor-executivo do Instituto Incube, ressaltou a necessidade de financiamento contínuo: “A organização precisa de estrutura para captar recursos, e de recursos para ter estrutura. O primeiro passo precisa vir do doador”.

No debate, o diálogo e a comunicação também foram colocados como ferramentas fundamentais para o desenvolvimento do ISP e das OSCs. Para Erika Saez, diretora executiva do Instituto ACP, o diálogo é fundamental: “É preciso confiar que todos estão ali por um bem comum”. Já Karla Danitza, gestora e programadora cultural da Feira Preta, concluiu reforçando a importância da escuta: “Entender qual é a comunicação com essas instituições, escutar é fundamental.”

Emergência climática: filantropia brasileira é convocada a agir em conexão com os territórios vulneráveis

maio 8, 2025

Crédito: GIFE

Atual contexto climático exige ações imediatas e coordenadas para que investidores e organizações da sociedade civil alcancem visão de longo prazo

Em um momento no qual o Brasil se prepara para sediar a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), a emergência climática deixou de ser uma pauta do futuro e seus efeitos exigem uma resposta imediata e comprometida. Durante a mesa Brasil no palco climático do mundo: o que temos a aprender e a oferecer, realizada no segundo dia de programação do 13º Congresso GIFE, mais do que investimentos financeiros, o debate girou em torno da necessidade de visão de longo prazo e conexão com os territórios vulneráveis.

“É um exercício constante fazer os recursos chegarem nos territórios”, reforçou Jonathas Azevedo, diretor-executivo da Rede Comuá. Sylvia Siqueira, da Open Society Foundations, fortaleceu o discurso, expondo que “essa conversa é sobre vida, e a vida ocorre em corpos, em territórios”.

Patricia Garrido, líder no Instituto Ethos, reforçou que, “quando falamos de riscos [climáticos], não são mais riscos, já são realidades”. O debate provocou a ideia de que a filantropia brasileira ainda caminha a passos tímidos frente à complexidade da crise ambiental, muitas vezes preferindo criar iniciativas próprias, em vez de fortalecer lideranças já existentes nas comunidades.

As crises ambientais foram tratadas como um tema transversal, que transita por desigualdades raciais e socioeconômicas. As falas reforçaram que enfrentar as emergências climáticas passa por apoiar quem está na linha de frente, como populações historicamente excluídas dos centros de decisão, conforme reforçou Amanda Costa, fundadora do Instituto Perifa Sustentável: “se queremos fortalecer a agenda climática, precisamos fortalecer lideranças negras, quilombolas e indígenas”.

Em paralelo, não há mais espaço para enxergar o clima como um risco futuro. Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, explicou que “existem agendas na sociedade que são de proteção. É preciso frear o ritmo de destruição daquilo que ainda existe”. A mesa propôs que empresas precisam ir além dos relatórios, elas devem se traduzir em práticas concretas e investimentos transformadores.

Diante de tragédias climáticas recorrentes, ficou claro que a filantropia precisa se despir da neutralidade e assumir uma postura intencional, como pontuou Alice Amorim, chefe da Unidade Extraordinária de Assessoramento para a COP30: “situações de urgência mostram o papel da sociedade civil, e que a solução é descentralizada”, ou seja, é a soma de múltiplos agentes.

Regulamentação de “big techs”: qual a tecnologia dos sonhos?

Crédito: GIFE

De que maneira as grandes empresas de tecnologia interferem na democracia e nos direitos humanos?

Como as  “big techs” – ou grandes empresas de tecnologia –  influenciam o debate público? A pergunta norteou a mesa Concentração de poder nas Big Techs e os riscos à democracia e aos direitos humanos, realizado no dia 7. 

“As plataformas precisam ser transparentes”, enfatiza Rodrigo Carreiro, co-diretor Executivo do Aláfia Lab. O Marco Civil da Internet (MCI), em seu artigo 19 determina a necessidade de prévia ordem judicial de exclusão de conteúdo para a responsabilização das plataformas por atos ilícitos praticados por terceiros, por exemplo. Mas é necessário, ainda, debater a regulamentação. “Transparência, abertura de dados para a discussão da sociedade civil e da academia é um ponto muito importante e vem sendo cada vez mais raro de acontecer”. 

Natália Viana, jornalista da Agência Pública, e mediadora do debate, apontou que se deve “dar a cara para os danos” que o oligopólio causa na democracia. Para isso, questionou Juana Kweitel, vice-Presidente de Programas Globais, América Latina (interina) e Iniciativas Estratégicas da Luminate, e Luã Cruz, coordenador da equipe de telecomunicações e direitos digitais do Idec,  acerca de possíveis soluções. Para Luã Cruz, é interessante implementar tecnologias alternativas que promovam o bem-estar e não causem danos graves às pessoas. 

Já Juana Kweitel,vice-Presidente de Programas Globais, América Latina (interina) e Iniciativas Estratégicas da Luminate, menciona a regulamentação do uso do celular por crianças nas escolas, onde seria uma forma de “colocar o gênio de volta na lâmpada”. Para ela, a tecnologia virou uma máquina de manipulação, moldando os desejos das pessoas, em vez de cumprí-los.

Nina da Hora, pesquisadora sobre inteligência artificial, vê a tecnologia como um aspecto além de dados e destaca a importância de pensar mais na “interação humano e computador”. Para ela, as big techs vem trazendo uma abordagem mais extrativista em detrimento de considerar o ser humano.

Diante disso, o debate sobre o papel das big techs na democracia exige não apenas regulamentação, mas também uma mudança de perspectiva: é preciso pensar em tecnologias que coloquem o ser humano no centro, promovam o bem-estar coletivo e respeitem os limites éticos. Só assim será possível transformar a tecnologia de um instrumento de controle em uma ferramenta de emancipação social.

“Territórios têm muito por ensinar, e a gente tem muito por aprender”: 13º Congresso GIFE aborda relevância da escuta territorial como ferramenta de transformação social

Crédito: GIFE

Segundo dia do 13º Congresso GIFE refletiu sobre territórios, suas realidades e desafios que envolvem esse vetor democrático de transformação social

Em uma mesa diversa e plural culturalmente, o comprometimento com a escuta e as relações com os territórios pautou a conversa, com a consciência de que transformar realidades exige mais do que boas intenções, mas uma atitude ativa, comprometida e situada. 

Nesse sentido, Carola Matarazzo, diretora-executiva do Movimento Bem Maior, reforçou: “a gente precisa enxergar o que não está explícito. Tem muito do ‘não dito’. Quem vai para o território vem do ‘não dito’”.

Joaquim Melo, líder popular e criador do Banco Palmas, abordou que os interesses que moldam a filantropia devem vir de baixo para cima, ou seja, partir das organizações da sociedade civil, o que, por sua vez, demanda escuta por parte do Investimento Social Privado (ISP). “Ela [filantropia] vai compartilhar, ela pode distribuir, mas, principalmente, ela pode convencer as comunidades de que o conhecimento é endógeno”, reforçou.

“Os territórios têm muito por ensinar, e a gente tem muito por aprender”, afirmou Benilda Brito, coordenadora do N’zinga Coletivo de Mulheres Negras de MG, ao falar sobre comunidades como os quilombos, as favelas e as aldeias, que já possuem suas próprias dinâmicas e soluções. Em um segundo momento, Benilda reforçou a necessidade de mudanças no enfrentamento do ISP aos diversos racismos. “A gente também sabe elaborar. Band aids não vão sarar nossas fraturas expostas. Vamos precisar fazer muito mais para transformar, e a escuta é fundamental”, comentou Benilda.

O escritor Kaká Werá convidou a plateia a reverenciar o território no qual acontece o Congresso, por meio de uma canção amazônica de conexão com a terra, água, vento, fogo, coração e pessoas. “Nossa ideia de território não é fixa. Nossos antigos se moviam seguindo o ritmo de acordo com os limites da terra e escutando até a necessidade da nossa ausência”.

Já Mariana Almeida, diretora-executiva da Fundação Tide Setubal, defendeu a presença no território a partir de escuta e aprendizado com a realidade local. “Não é consultar. É entender nessa relação comprometimento genuíno na presença e permanência a longo prazo”, detalhou.

Marcha das Mulheres Negras: presente!

No encerramento da plenária os participantes foram surpreendidos com a presença de Naiara Leite, representante da Marcha Mundial das Mulheres Negras, que convidou a sociedade civil e o ISP a enxergar a Marcha não como evento, mas como um processo. “Não tem democracia, não tem vida, não tem território nesse país a ser pensado se o debate de enfrentamento ao racismo não for central”, destacou.

“Qual o futuro antirracista e anticapacitista que a gente quer?”

Crédito: GIFE

Painel destaca educação como ferramenta para romper com desigualdades estruturais desde a infância e fortalecer justiça social

Quando tratamos de desconcentrar poder, conhecimento e riquezas, tratamos de construir uma educação igualitária e novos imaginários sociais. A mesa Educação plural: uma estratégia inclusiva, antirracista e democrática, do 13º Congresso GIFE, realizada nesta quarta-feira (7), reuniu pessoas negras e indígenas do audiovisual, educação e de organizações para debater o papel da educação e da filantropia no enfrentamento das desigualdades estruturais na educação de crianças negras, indígenas e com deficiência no Brasil.

Mediado por Flávia Doria, do Instituto Alana, o encontro apontou vias para a desconcentração de poder e saberes, a partir da valorização da infância. Gersem Baniwa, coordenador do Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena, destacou que o processo de escolarização indígena precisa respeitar os saberes tradicionais. “A natureza e os espíritos detêm o conhecimento do mundo. Por isso, o saber indígena é milenar e coletivo. Não pode ser domesticado por modelos coloniais de ensino”, explicou.

Gersem alertou sobre a ausência de pessoas indígenas nos debates sobre justiça climática. “Somos quem ainda mantém a natureza, e não somos ouvidos. A filantropia precisa apoiar, porque as políticas públicas não estão dando conta”, enfatizou.

Natália Neris, da Casa Sueli Carneiro, destacou o papel histórico das organizações negras na transformação da democracia brasileira. Segundo ela, essas instituições enfrentam barreiras que não são impostas às organizações brancas. “Mais de 80% das organizações negras usam recursos próprios para se manter. Isso revela uma desigualdade estrutural no acesso ao financiamento.”

Abordando sobre a desconcentração de poder, Monique Rocco, da Maria Farinha Filmes, opina que, desde cedo, somos ensinados a nos ver como coadjuvantes, e que essa perspectiva precisa mudar. “Precisamos ocupar os lugares de poder e disputar o imaginário. Só assim é possível sonhar e criar futuros mais plurais.”

Luciana Viegas, ativista do movimento Vidas Negras com Deficiência Importam, trouxe questões-chave sobre a forma como a inclusão é tratada no Brasil. “A educação parou em 2008. Voltamos agora com um aumento de diagnósticos e medicalização das infâncias, sem pensar na potencialidade dessas crianças”, alertou.

Além disso, Luciana defendeu que a filantropia precisa pensar nos custos para pessoas com deficiência como investimento, não como um gasto. “Precisamos pensar num futuro acessível e inclusivo para todos. E isso começa com as crianças. A filantropia deve refletir sobre por que quase não se apoia organizações voltadas para pessoas com deficiência.”

Escuta ativa e intencionalidade: chaves essenciais para um ISP mais estratégico

Crédito: GIFE

Um total de 80% dos recursos do ISP estão concentrados na Região Sudeste. Chegou a hora de pensar caminhos para uma distribuição mais equitativa

O Investimento Social Privado (ISP) tem ganhado protagonismo dentro das estratégias corporativas voltadas à agenda ESG. Durante o 13º Congresso GIFE, o tema esteve no centro do debate da mesa Investimento social corporativo e suas alternativas no enfrentamento às desigualdades.

A discussão foi mediada por Raull Santiago,um dos fundadores da Iniciativa PIPA, que ressaltou a importância de “propor soluções práticas” e com impacto real no campo do ISP. Um dado que chamou atenção foi apresentado por Raphael Meyer, co-fundador da Simbi: aproximadamente 80% dos recursos do Investimento Social Privado continuam concentrados na Região Sudeste. Para ele, é fundamental enfrentar as causas estruturais dessa desigualdade. “É preciso tratar a raiz da questão”, destacou.

Junto a Meyer, estiveram na mesa Camilla Valverde,CEO da ArcelorMittal, Guibson Trindade ,especialista em ESG, e Paula Fabiani, CEO do IDIS,   concordaram sobre um ponto central: a intencionalidade é essencial para reverter  o cenário de concentração e promover maior equidade na distribuição dos recursos. Guibson Trindade apontou que a ausência dessa intencionalidade está na base da baixa efetividade de muitas ações filantrópicas. “A desmobilização é natural quando não toca na pele.”.

Já Paula Fabiani reforçou que as empresas têm o poder de fomentar uma economia mais justa, e lembrou que esse compromisso é também uma demanda crescente dos consumidores: 62% deles se dizem desconfortáveis ao adquirir produtos que ignoram critérios ESG. “A empresa tem o poder de criar uma sociedade mais responsável e a capacidade de criar um valor muito positivo.”

Camilla Valverde destacou o “papel da escuta ativa” como ferramenta para tornar as ações sociais mais eficazes. Segundo ela, ouvir as necessidades reais dos territórios onde a empresa atua tem sido determinante para a qualidade dos projetos apoiados. Um exemplo é o investimento de R$ 2,7 milhões da ArcelorMittal em iniciativas de fortalecimento de negócios locais nos municípios cearenses de Caucaia, São Gonçalo do Amarante e região.

O 13º Congresso GIFE reforçou que discutir ESG é mais do que uma tendência, é uma urgência. E, quando se trata de tirar do papel projetos com propósito, o ISP se mostra um instrumento poderoso, desde que guiado pela escuta atenta e pela ação intencional.

“É necessário focar no resultado e relembrar o motivo de estarmos reunidos”

Crédito: GIFE

Conectar pessoas com múltiplos olhares colabora para criar um impacto coletivo e participativo nos territórios

Entender a colaboração como elemento fundamental para a catalisação de ecossistemas de impacto. Nesse sentido caminhou a mesa intitulada Governança participativa no fortalecimento de ecossistemas de impacto, do 13º Congresso GIFE, realizada nesta quarta-feira (7). Com mediação de Carol Velasco, vice-diretora do ICE, a conversa buscou mostrar como unir e conectar pessoas que possuem diferentes perspectivas possibilita ter múltiplas vozes olhando para as necessidades emergentes, alocando recursos em diferentes territórios e atores, e criando um impacto coletivo, para que possa sanar uma dor que permeia a todos. Afinal, “é preciso pensar nas soluções juntos”, disse Velasco.

Manú Longo, professora e fundadora no Social Brasilis, expôs a necessidade da democratização da formação qualificada dos empreendedores, principalmente daqueles que estão na ponta. Além disso, ela reafirma a importância da capacitação que supera apenas o técnico: “Socioemocional é a nossa base, e depois vamos incluindo as competências técnicas para gerir um empreendimento”.

Aprofundando ainda mais o debate, Geórgia Bento, Fundadora da Obará Edutech, afirma que estar com pessoas que tenham visões de mundo diferentes, com poderes diferentes, é capaz de gerar mudança, e que a transformação propositiva é  uma jornada para construir uma solução colaborativa efetiva. Como ela vivenciou na prática: “Quando a gente conseguiu unir expertises, a gente consegue alcançar escala”, contou.

Bea Johannpeter, diretora do Instituto Helda Gerdau, afirmou que é necessário abrir mão do poder para dar autonomia para que as organizações possam criar soluções colaborativas que alcancem diferentes públicos de maneira eficaz. “Estamos longe de toda a escuta que queríamos ter, de toda a inclusão que podemos proporcionar”, afirmou. Nesse sentido, figuram a importância de se manter uma escuta ativa e praticar um olhar para a inclusão.

Fortalecer ecossistemas de impacto passa, antes de tudo, pela escuta ativa, valorização de diferentes perspectivas e pela disposição de compartilhar poder. A decisão de construir soluções de forma coletiva, cria naturalmente, caminhos mais inclusivos e eficazes para transformar realidades.

É preciso construir pontes para enfrentar os desafios políticos e econômicos da filantropia latino-americana

Crédito: GIFE

Os impactos da nova conjuntura internacional na atuação do Investimento Social Privado na América Latina são ao mesmo tempo desafios e ocasiões para a união do setor

No primeiro dia do 13º Congresso GIFE – Desconcentrar poder, conhecimento e riquezas, a mesa Filantropia latinoamericana à luz da nova conjuntura internacional reuniu especialistas de diferentes países para debater o papel das filantropias frente aos desafios sociais, políticos e econômicos da América e, especificamente, América Latina.

Mediado por Telma Rocha, da Fundação Avina, que deu início ao debate destacando a importância de se compreender os contextos específicos de cada país da América Latina e da América para construir estratégias de atuação coletiva. “Estamos vivendo uma disputa de narrativas. Parece que só um lado tem voz e o outro acaba receoso. Precisamos de coragem e voz”, afirmou. 

Ivan Buffone, diretor-executivo do GDFE (Grupo de Fundaciones y Empresas), explicou que hoje o setor privado e as fundações corporativas são cruciais para a sociedade. “O setor privado e a filantropia são uma união fundamental para gerar impacto social. Não dá para entender a polarização social se não compreendermos isso. É uma oportunidade para assumirmos o protagonismo.”.

Representando o Chile, Emilia González, que lidera o Centro de Filantropia e Investimento Social na Escola de Governo da Universidade Adolfo Ibáñez, compartilhou reflexões sobre a filantropia precisar crescer em volume, construir pontes e fortalecer organizações, e não apenas projetos pontuais. “É preciso investir em organizações fortes, porque os projetos sozinhos não dão conta”.

Edgar Villanueva, autor do livro Decolonizing Wealth, trouxe a perspectiva dos Estados Unidos para o debate, alertando sobre os efeitos do acúmulo de riquezas. “De onde vem esse dinheiro? A quem acumular essa riqueza prejudicou?”, indagou. Para ele, há um fenômeno global de desmonte da democracia, e uma ocasião para a mudança: “É uma oportunidade para nos unirmos e apoiarmos uns aos outros”.

Ricardo Bucio, do México, reforçou os riscos do avanço autoritário e da desinformação. “Vivemos um momento de retração da democracia. As populações mais afetadas são mulheres, pessoas racializadas, com deficiência e outras minorias”, alertou. Segundo ele, o Congresso Federal e os parlamentos locais estão servindo à Presidência em um processo de fechamento institucional. “Precisamos ter uma visão de desconcentração.”

Ao longo da mesa, os participantes reforçaram que a filantropia latino-americana deve se comprometer com a democratização da tomada de decisões e a redistribuição de recursos. Com base nas realidades territoriais das diferentes regiões abordadas, o investimento do setor privado pode se mostrar um agente estratégico para impulsionar práticas sustentáveis, justiça econômica e desenvolvimento regional, especialmente em territórios historicamente marginalizados.