Colaborar para fortalecer: como a filantropia pode ampliar o impacto social alinhado às necessidades regionais

maio 12, 2025

Fonte: GIFE

Painel destacou a colaboração como ferramenta de descentralização, abordando a desigualdade nos variados âmbitos e esferas de atuação

Como a filantropia colaborativa pode fortalecer iniciativas locais, ampliar o impacto social e impulsionar soluções alinhadas às necessidades regionais, com foco na redução das desigualdades e no fortalecimento do ecossistema de impacto. O painel Filantropia colaborativa como ferramenta de descentralização, realizado no 13º Congresso GIFE, debateu como o investimento social pode garantir a distribuição estratégica e equitativa de recursos, promovendo o desenvolvimento sustentável em diferentes territórios.

Mediado por Gabriel Cardoso, gerente-executivo do Instituto Sabin, o encontro abordou o impacto e os desafios que a reunião, união e troca de saberes de instituições diversas em torno de um objetivo comum pode gerar descentralização de maneira sistemática. Para isso, segundo ele, seria preciso diálogo, buscando compreender questões em comum entre indivíduos e instituições. “Outro aspecto da colaboração é justamente a parte que cada instituição chega com um capital diferente mas igualmente importante”, apontou.

Leandra Santos, analista de Responsabilidade Social no Instituto Bancorbrás propôs a prática de um olhar atento para compreender e se unir em torno de causas e mobilizações relevantes: “uma grande terapia, porque as nossas dores, enquanto instituto, por diversas vezes é a mesma de quem tá do nosso lado”.

Nesse sentido, Leila Republicano, representante do BRB – Banco de Brasília, reforçou a importância de se reunir em torno de pontos comuns, como a capacitação de organizações sociais para se alcançar um melhor acesso ao conhecimento. “Se a gente acredita que o trabalho em rede faz a diferença, que fortalece o sistema, nada mais apropriado do que juntar os investidores para potencializar os programas. Quando se faz isso, tem um impacto muito maior”, observou.

Abordando a agilidade que se precisa ter ao desenhar estratégias que possam sair de ações pontuais para desenvolver ações sistemáticas, Josandra Rocha, analista de projetos na Fundação André e Lucia Maggi (FALM), asseverou: “Pensar rápido, agir rápido e pensar a colaboração de maneira rápida”.  Ela enfatizou o desafio de abrir mão da individualidade, para se pensar no conjunto e no objetivo comum que norteia os processos de colaboração. “É difícil sair do que você quer como pessoa. Ainda mais quando se está dentro de um PJ, lidando com os anseios de outros CPFs.”

Já Duda Scartezini, co-fundador dos Impact Hub em Brasília, Goiânia, João Pessoa, Fortaleza, Recife e Belém, trouxe a visão de articulador e da instituição dinamizadora. Para ele, essa relação engloba a necessidade de conectar e fazer o impacto chegar na ponta, através de equipes capazes de pensar o global e agir no local. “Montar times autônomos, que são capazes de fazer acontecer nos seus estados e impactar nacionalmente”, indicou.

Entende-se que a colaboração é uma ferramenta de alto impacto, mas também de extrema complexidade, fazendo com que os atores envolvidos estejam constantemente voltando-se para aquilo que os uniu e usando-a como norteadora na busca pela compreensão dos diferentes valores, processos, governança e cultura que os envolvem.

Transformar o campo e a mesa: a complexa missão de criar sistemas alimentares sustentáveis

Fonte: GIFE

Repensar o atual sistema agroalimentar no Brasil é enfrentar questões como emergência climática, desigualdades sociais, aumento de casos de doenças e a perda de biodiversidade para organizar um modelo de sistema agroalimentar no Brasil mais justo socioeconômica e ecologicamente

Falar do alimento implica ir muito além daquilo que se põe na mesa. O sistema agroalimentar brasileiro na atualidade se organiza numa estrutura que repercute diretamente no avanço acelerado da crise climática, na perda de biodiversidade e no aumento de doenças crônicas entre a população. Tudo isso somado à manutenção das desigualdades sociais. Diante dessa realidade complexa, como desenhar um outro modelo agroalimentar?

Mediado por Michael Oliveira, gerente de programas da Porticus para a América Latina, e Iara Rolnik, diretora de Programas do Instituto Ibirapitanga, o painel Filantropia e sistemas alimentares do Brasil: três desafios que precisamos enfrentar se propôs a responder essa questão. Apoiar práticas agropecuárias regenerativas, gerar trabalho e renda para pequenos produtores e incentivar dietas saudáveis são alguns exemplos.

Para Ricardo Abramovay, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), a natureza precisa ser reconhecida como um ator político com direitos próprios. Ele trouxe três exemplos de como isso acontece.

“Primeiro: a agricultura está concentrada em áreas vulneráveis à crise climática, como o Cerrado e o Sul do Brasil, com enchentes. Segundo: a produção animal se separou de suas fontes de alimentação verdadeira, e o resultado disso são doenças que só não se propagam por conta de remédios com microorganismo. Terceiro: depois da Segunda Guerra Mundial, passamos a depender de alimentos ultraprocessados, o que ocasiona uma pandemia global de obesidade.”

Marcelo Leal, membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), propôs uma leitura crítica dos modelos impostos ao Brasil. “Historicamente, nossa agricultura sempre foi voltada para fora, para exportação: pau-brasil, café, soja. Hoje, vemos o ovo e o café virando itens de luxo, enquanto os desertos alimentares crescem nas periferias”, destacou.

Diante disso, Leal apresentou três grandes frentes para atuação da filantropia: infraestrutura social, ecológica e econômica. “Agricultura se faz com gente. Precisamos de governança democrática, restauração territorial – com o agricultor familiar como coprodutor da tecnologia – e cozinhas solidárias, como verdadeiras tecnologias sociais.”

Nesse sentido, é possível afirmar que o sistema agroalimentar também é impactado pela falta de diversidade, não só nas formas de produção, mas também no consumo dos alimentos. Rute Costa, coordenadora do projeto Culinafro, fala de racismo alimentar: “Não dá para falar de fome e má alimentação sem falar de racismo. A sociedade brasileira que viveu quatro séculos de escravidão continua negando isso. A população pobre tem cor, e mulheres negras alimentam o Brasil, do seio ao prato, desde que aqui chegaram”, afirmou.

Rute enfatizou como os ultraprocessados também têm raça e classe. “Quem são os consumidores desses produtos? Quem vive nos desertos alimentares? Quem tem acesso ao alimento in natura?”, questionou. Ela defendeu a formulação de políticas públicas que fortaleçam os sistemas alimentares locais e populares, como a alimentação escolar, a reforma agrária e os grupos organizados por mulheres quilombolas, indígenas e agricultoras familiares. “Precisamos enfrentar os apartheid alimentares e regular o que chega à nossa mesa”, concluiu.

Para Gustavo Lobo, representante do setor de crédito agroalimentar, o desafio é destravar os instrumentos políticos e financeiros que detêm a agroecologia. “A filantropia pode ser um vetor para fortalecer arranjos entre oferta e demanda que valorizem a diversidade produtiva”, afirmou.

É preciso reconectar campo e cidade, democratizar o acesso à alimentação saudável e fortalecer a soberania dos territórios por meio de práticas sustentáveis e investimento social estratégico. A filantropia, nesse processo, deve assumir um papel articulador, enfrentando as desigualdades raciais e territoriais, e construindo alianças capazes de regenerar o solo, a cultura e a política da alimentação no país.

Experiências latino-americanas apontam caminhos para transformar a justiça de gênero e raça desde a raiz

maio 11, 2025

Fonte: GIFE

Painel reuniu mulheres representantes de organizações para pensar rumos de transformar as opressões de gênero e raça desde perspectivas profundas 

No painel Transformar a partir da raiz: experiências de justiças de gênero e racial na América Latina e Caribe, durante o 13º Congresso GIFE, integrantes de organizações da sociedade civil lideradas por mulheres em sua diversidade debateram como recursos flexíveis e colaborativos potencializam a transformação em territórios e comunidades. Na ocasião, foram apresentadas experiências concretas sobre como o trabalho comunitário fortalece direitos, gera impacto social e desafia estruturas de desigualdade na região.

A mesa, conduzida por Savana Brito, diretora do Fundo ELAS+, reuniu ativistas de organizações latinas. “O nome da mesa foi construído junto com os oito fundos de mulheres da América Latina, para refletir o acúmulo de saberes construído por organizações de mulheres em seus ecossistemas. Como descentralizar poder e riqueza para alcançar a justiça racial e de gênero?.” Segundo ela, o Fundo ELAS+ identificou que 48% das fundações lideradas por mulheres negras sobrevivem com apenas 20 mil reais por ano, quantia que, em muitos casos, depende do autofinanciamento das próprias ativistas.

Ao apontar que os desafios para o financiamento interseccional permanecem estruturais e seguem distantes de alcançar os resultados almejados, Valdecir Nascimento, ativista do movimento de mulheres negras, afirmou: “descentralizar poder e riqueza exige mudar a narrativa, para que não acreditemos, ao sair daqui, que estamos nesse processo de descentralização, e sim de reflexão, e avançar, no que se diz respeito ao financiamento e à interseccionalidade”.

A perspectiva do autofinanciamento também foi reforçada por Mônica dos Santos, membra do coletivo de artesãs Nzinga Ethnic Crafts. Ela compartilhou o trabalho com bonecas afro de pano e livros infantis: “criar espaços para aquilombamento é criar justiça econômica. Estar na militância permanentemente é cansativo. A boneca é símbolo de luto e infância, e também de reparação para que cheguemos perto de onde podemos estar”.

Do México, Mijane Jiméz Salinas, presidente da associação afromexicana Mano Amiga de la Costa Chica A.C, salientou a invisibilidade das organizações negras em seus país: “há dois milhões de afromexicanos e poucas organizações. Brancos tomam os nossos recursos, nossa academia e nossas narrativas. Quem escreve sobre nós não somos nós”. Ela questionou: “estamos tendo uma vida digna? Como pensar em projetos e formas de se organizar se estamos preocupadas com o que comer e com o próximo furacão a vir?”.

Também cobrando uma maior proximidade entre discursos e realidades, Ilandra Maldonado, integrante de La Colmena Cimarrona, afirmou: “pesquisadores brancos não chegam de verdade nos territórios. A separação entre os povos é um efeito colonial que ainda nos impacta hoje”. Para Zenaida Perez, membra da Asociación de Mujeres Afrobolivianas, a descentralização do poder passa pela escuta e pela comunicação horizontal. “Não falo a partir do poder, falo a partir da igualdade. Eu centralizo o meu poder, mas quando escuto a coleguinha que fala baixo, estou descentralizando o meu poder”.

Valentina, cofundadora da Rede de Mulheres Trans Migrantes da América Latina e do Caribe, apontou o que ela considerou um apagamento, no próprio evento: “nestes dois dias de evento, não ouvi a palavra ‘trans’. Falaram de LGBT, mas nós não somos LGBT, somos trans. E estamos lutando há tempos por uma identidade. Tirem a gente do algoritmo LGBT, estamos lutando por outra coisa”. Ela alertou para uma exclusão sistemática das mulheres trans negras, sobretudo em contextos de imigração e comunidades irregulares, onde faltariam documentos, recursos e reconhecimento: “mesmo segregadas, produzimos cidade, cidadania e conhecimento”.

Ao final da mesa, o chamado das mulheres afro que compunham a mesa foi para uma filantropia verdadeiramente afrofeminista, que descentralize recursos, ouça os territórios e caminhe lado a lado com as marchas e lutas das mulheres negras do continente. “A Marcha das Mulheres Negras está sendo organizada. O que pedimos é que a filantropia seja flexível e caminhe conosco para trazer mulheres negras de toda a América Latina”, convocou Valdecir Nascimento. 

Parcerias em nome do futuro e do presente: investir  na garantia de direitos das infâncias contribui para superar falhas estruturais

Fonte: GIFE

Filantropia e investimento social privado aparecem como fundamentais parceiros para mudar os rumos de crianças e adolescentes

O racismo permanece como entrave para superação da pobreza e insegurança alimentar entre meninos e meninas brasileiras, e as parcerias no campo da filantropia e investimento social privado (ISP) despontam como oportunidade para romper ciclos de violações de direitos. Essa foi a convergência dos debates do painel Infâncias e desigualdades: um diálogo sobre os dados, as políticas sociais e o papel da filantropia na alavancagem de mudanças estruturais, no 13º Congresso GIFE.

De acordo com dados apresentados por Dandara Ramos, professora do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, a pobreza atinge seis em cada dez crianças brasileiras, influenciada por um ciclo de fatores que reforçam a desigualdade, especialmente na primeira infância. Entre os caminhos para superação desse quadro, Dandara apontou o “reconhecimento e enfrentamento das falhas estruturais que produzem estas desigualdades” e as parcerias entre poder público e sociedade civil como “janelas de oportunidade importantes”.

Entre essas falhas estruturais está o racismo. Nesse sentido, Zelma Madeira, secretária de Igualdade Racial do Ceará, lembrou o passado criminoso do período escravocrata no Brasil e destacou a necessidade de pensarmos a pluralidade das infâncias, com destaque para o Ceará, onde 56% da população se declara preta ou parda. “Como eu vou pensar uma ‘criança universal’? Trabalhar uma infância com pluralidade é pensar um desenvolvimento social, econômico também a partir da questão racial. Um dos maiores danos do racismo é a desumanização.”

No campo das políticas públicas, a assistência social desempenha papel fundamental. Santiago Varella apresentou a experiência do Unicef Brasil em ajudar 2 mil municípios brasileiros a melhorar a relação de equipamentos da assistência social com a saúde no atendimento de crianças e adolescentes. “Existem políticas públicas relevantes para algo complexo, mas esse conjunto de soluções está fragilizado. Há muito espaço de contribuição dos estados, mas também da filantropia”, indicou.

Uma dessas parcerias foi apresentada por Ana Morato, diretora programática da Desiderata, que apresentou o cenário de “desertos alimentares” no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, territórios em que o acesso a frutas e verduras é atravessado por questões como renda e segurança pública. “As famílias não escolhem ter uma alimentação rica em gorduras e açúcares. Elas sabem o que é saudável. Elas não conseguem acessar.”

Não só no tema da insegurança alimentar, mas na garantia integral de direitos, para Marina Chicaro, diretora de políticas públicas na Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, é preciso olhar para meninos e meninas desde o começo da vida, não como “projetos de adultos”, mas sim como sujeitos de direitos hoje. Combater as desigualdades apostando no investimento em políticas públicas com acesso e qualidade para as infâncias é alavanca para a transformação do país. “Não existe resposta pronta, mas acredito no trabalho conjunto entre os diferentes setores somando seus esforços e aprendizados para atuar na raiz dos problemas”, concluiu Marina.

Em tempos de guerra de narrativas e avanço de big techs, financiar iniciativas plurais de comunicação é redistribuir poder

Fonte: GIFE

Panorama de dominação econômica e discursiva das grandes empresas de tecnologia se contrapõe à insuficiência de recursos para vozes plurais da comunicação

Uma estratégia que aponta imaginários, agiliza a mobilização, edifica narrativas e fomenta engajamentos, mas ainda é pouco financiada pelo investimento social privado (ISP) brasileiro. Os enfrentamentos da comunicação e do jornalismo comprometidos com causas sociais foi o mote da mesa Comunicação estratégica e a construção da opinião pública: o papel do ISP no financiamento da transformação social, durante o 13º Congresso GIFE.

Em um quadro mundial de concentração de riquezas pelas big techs, Ana Carolina Lourenço, membro do Instituto Comunicação e Incidência – ICCI, lembrou que as maiores fortunas do mundo vêm de grandes empresas de comunicação. “Elas têm um projeto que se desloca num sentido oposto do que defendemos aqui.”

A contradição também foi apontada por Daiene Mendes, do Fundo de Apoio ao Jornalismo (FAJ). Ela lembrou que o jornalismo digital lidera a inovação hoje mundialmente, mas permanece subfinanciado. “A filantropia nacional precisa se comprometer com esse movimento, trazer mais identidade e informação para esse campo”, avaliou.

Um dos caminhos para desconcentrar poderes e superar esse cenário, na visão de Yane Mendes, da Rede Tumulto, é conhecer as iniciativas que já são realizadas nas periferias brasileiras e apostar em coalizões de comunicação que emergem desses territórios. “As agências (de financiamento) precisam não só ‘apostar’ (nas iniciativas), mas acompanhar também”, observou.

Na mesma linha de Yane, Victor Moura, fundador do coletivo de comunicação Redes do Beberibe, listou as dificuldades de se fazer jornalismo independente com base comunitária, como a falta de equipamentos, de sede própria e de reconhecimento. “A gente tenta trazer exemplos práticos, como a rua sem arborização. O jornalismo é uma estratégia para o  cidadão compreender a realidade que o cerca”, citou Victor, sobre as apostas da iniciativa liderada pelo profissional.

Outro exemplo de bom uso de comunicação como estratégia para influenciar o debate público foi a experiência da campanha “Nem presa nem morta”, apresentada por Laura Molinari. Por meio do Festival pela Vida das Mulheres e da campanha Criança não é Mãe, foi possível construir um contraponto de narrativas relacionadas ao tema do aborto, geralmente centrado em discursos criminalizadores.

“Conseguimos ouvir outras vozes, mostrar como o tema se relaciona com outras agendas, como o fim da escala 6×1, o direito de criar filhos e filhas”, expôs. A ideia de acionar outros imaginários também foi possível, segundo Laura, por meio da utilização de símbolos como lenço verde e a planta arruda. Laura reconhece, porém, desafios na pauta. “Ainda precisamos de uma mudança cultural profunda para conseguirmos mudanças legislativas”, concluiu.

Inteligência artificial e educação: entre o potencial transformador e os riscos de exclusão

Fonte: GIFE

Para se alcançar uma perspectiva equilibrada sobre os usos da IA, é necessário colocar na mesa não apenas as qualidades inovadoras, mas sua capacidade de ameaçar avanços sociais

A inteligência artificial (IA) já está fortemente presente na rotina da sociedade, inclusive nas salas de aula. A mesa Inteligência artificial na educação: reforço de desigualdades ou possibilidade de transformação para o país?, apresentada durante o 13º Congresso GIFE, refletiu sobre como essa tecnologia inovadora está transformando a maneira de aprender, ensinar e avaliar na educação brasileira. Mas fica o alerta: como garantir que o avanço do uso das IAs não reproduza lógicas de exclusão?

No debate, Isabella Henriques, diretora executiva do Instituto Alana, destacou que, em um país como o Brasil, “onde temos 29% da população analfabeta funcional; e 1 em cada 8 pessoas com ensino superior completo analfabeto funcional”, é fundamental entender o papel da IA na vida da população. Ela pontuou que a tecnologia pode ser uma aliada na educação, se usada de forma ética, mas que é preciso considerar os espaços de subjetividade e emoção. “Uma criança que está constantemente vigiada, talvez não queira errar, e esse é um caminho importante para ser discutido”, advertiu.

Ao tratar de desigualdades históricas no país, Luana Génot, fundadora e diretora-executiva do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), destacou que é urgente discutir o letramento racial frente ao avanço da tecnologia, uma vez que “o racismo estrutural é um dos fatores que mais levam ao desengajamento em sala de aula”. Segundo ela, “os algoritmos da inteligência humana são ensinados a ser excludentes.”

Por outro lado, Murilo Nogueira, diretor da Fundação Bradesco, falou sobre o potencial transformador da IA, ressaltando que ela pode acelerar o desenvolvimento de ideias e democratizar o acesso ao conhecimento. “Hoje, alunos conseguem acessar ferramentas que ajudam a colocar no papel ideias que antes exigiriam o trabalho de vários profissionais”. Mas advertiu: “quando usada sem governança, sem cuidado, isso gera uma dificuldade imensa para controlarmos questões socioemocionais e psicológicas”.

Ao analisar o comportamento social diante de tecnologias disruptivas, Denis Mizne, diretor-executivo da Fundação Lemann, relembrou a chegada de inovações como o Google e ressaltou que reações eufóricas, sejam otimistas ou pessimistas, são comuns. “O que acontece, geralmente, são melhorias incrementais e novos riscos”, amenizou. Para ele, é essencial criar um ambiente regulatório, alinhado à realidade: “não dá certo uma tecnologia chegar desconectada da realidade das escolas e do projeto de país que se quer para a educação”.

Também com um viés ponderado, Tarcízio Silva, fundador da Desvelar e pesquisador do Nanet/ Abong, reforçou que a IA é desenvolvida com base na inteligência humana e pode ampliar o potencial da educação, como em jogos pedagógicos ou impressões 3D, bem como enfraquecê-la por meio de desigualdades. Dessa forma, defendeu mais transparência e participação social na regulação dessas ferramentas: “Se a gente não tiver diversidade de raça, classe e das funções profissionais analisando o sistema, não é possível pensar em um sistema realmente positivo. A gente pode pensar num sistema educacional sem a participação dos professores? É isso que está em jogo”.

Não deixe a pauta morrer: 13º Congresso GIFE discute políticas internas de D&I que geram transformação

Fonte: GIFE

Para assegurar a construção da equidade é necessário desenvolver práticas e processos internos que garantam diversidade e inclusão

Pensar como o investimento social privado (ISP) pode ir além oportunizar recursos, mas garantir que as políticas de inclusão transformem realidades. Assim iniciou-se a mesa Caminhos pela equidade: como o ISP tem construído políticas internas de diversidade e inclusão do 13º Congresso GIFE. Com mediação de Diogo Lima, diretor e sócio-fundador na Dendezê, o debate abordou práticas reais, que funcionam como norteadoras para projetos e influenciam na tomada de decisão. “Ações que vão ensejando mudanças que estão além da pauta, mas que vão amadurecer também a organização”, explicou Diogo.

Para abrir a discussão, Rayssa Winnie, que desenvolve tecnologias sociais em educação afrocentrada pela Kindezi Brasil, questionou: “quando se fala de caminhos, o que a gente já percorreu?”. Segundo ela, práticas como a atualização de dados demográficos internos são fundamentais, enfatizando que, para se trabalhar com equidade, é necessário compreender as realidades e, só então, repensar estratégias de diversidade e inclusão.

Dessa maneira, Renata Lírio, diretora de Pessoas e Cultura no Alana, reforça que é necessário começar com o mapeamento de processos internos e de base para entender o que pode e o que não pode acontecer dentro das organizações. A partir disso, segundo ela, é importante abrir canais de diálogo e manter a pauta sempre viva. A ideia é evitar condutas impositivas, privilegiando construções coletivas: “Decreto não muda comportamento, é a prática”, defendeu.

Já Juliana Lombardo, da área de pessoas no Instituto Unibanco, abordou a necessidade de se compreender como se comunicar, além de se indagar sobre a efetividade da pluralidade nas organizações. “Pessoas não são recursos.” Para que isso aconteça, Viviane Soranso, coordenadora de programa na Fundação Tide Setubal, sugere que é preciso colocar em prática princípios de diversidade, inclusão e equidade, buscando criar soluções de dentro para fora, permeando todas as iniciativas institucionais. “A intencionalidade é importante.”

Nesse sentido, é preciso reconhecer a importância de processos que estão na base da área de pessoas e que trazem o nível de maturidade das empresas frente à temática. O ponto de partida para a criação de soluções eficazes deve sair do discurso e causar efeito na tomada de decisão das organizações.

Transição ecológica exige um mundo que alie inclusão produtiva e qualificação profissional com sustentabilidade socioambiental

maio 9, 2025

Fonte: GIFE

O momento é de pensar todos os âmbitos da sociedade de maneira cada vez mais conjunta. Afinal, não existe responsabilidade ambiental sem inclusão produtiva e social 

Em um contexto de transição ecológica, o painel Inclusão produtiva e sustentabilidade: como alinhar oportunidades de trabalho e renda em um mundo em transição, apresentado no 13º Congresso GIFE, abordou desafios e oportunidades de conciliar promoção de emprego, qualificação profissional e adaptação de setores tradicionais com as necessidades ambientais e sociais. Em um país desigual como o Brasil, o investimento social privado (ISP) é chamado a construir junto um futuro mais promissor.

Natália Leme Quadros, gerente de Programas e Parcerias na Fundação Arymax, destacou que o ISP tem um papel essencial para que essa transição ocorra de forma efetiva e digna. “A gente acredita que essa economia para uma transição sustentável só será possível se as pessoas conseguirem ser produtivas por meio de oportunidades dignas de trabalho”, defendeu.

Este momento de transição, de acordo com Vahíd Vahdat, diretor-executivo adjunto do Instituto Veredas, representaria uma oportunidade de construir um novo mundo, que já está em curso, apesar dos desafios, que “são multifacetados”. Ele enfatizou, porém, que não há uma fórmula pronta para essa mudança, mas que é necessário responsabilidade e atenção para que essa empreitada não aprofunde desigualdades. “Quando a gente fala de transição para uma economia mais verde, se não dermos atenção à inclusão produtiva, os resultados dessa transição serão limitados e gerarão mais desigualdades.”.

A mesa também pontuou que pessoas em situação de vulnerabilidade tendem a sofrer maiores impactos socioambientais. Nesse contexto, Maria Gabriella Souza, analista de política climática na Latin American Climate Lawyers Initiative for Mobilizing Action (LACLIMA), destacou o papel das juventudes, ressaltando a importância de incluí-las nesse processo de transformação. “Que a juventude seja captada para estar dentro das organizações. A juventude também contribui, também tem soluções, principalmente as dos territórios”, indicou.

Também Juliana Lopes, diretora de Natureza e Sociedade do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), reforçou que o momento atual é complexo, e também promissor, com eventos internacionais e atenções voltadas ao Brasil: “eu acredito que neste ano a gente precisa ser muito focado e conseguir se articular para construir essas soluções coletivamente”. Ela enfatizou, ainda, que uma transição justa precisa ser planejada, para não deixar ninguém para trás: “é importante ancorar o investimento privado nessas políticas públicas”.

Cultura é ferramenta para o desenvolvimento sustentável e deve ocupar papel estratégico no investimento social privado

Fonte: GIFE

É necessário reconhecer a potência da diversidade cultural brasileira, incentivar a produção e descentralizar recursos

Muito mais do que expressão artística, a cultura é uma força viva que molda identidades, estrutura, relações de poder e projeta futuros. No 13º Congresso GIFE, o painel Cultura e suas transformações: poderes e saberes lançou luz sobre o papel estratégico da cultura no desenvolvimento sustentável, destacando seu potencial como ferramenta de inclusão, resistência e mobilização social.

Mediadora do debate, Marcele Oliveira, diretora executiva do Perifalab, destacou que o cultural é uma forma de ocupar espaços e deve figurar como área estratégica no contexto do investimento social privado (ISP). Afinal, “o que fala mais com a gente do que a cultura?”, questionou.

Mariana Resegue, consultora do Instituto C de Cultura, trouxe dados que reconhecem o Brasil como uma potência em diversidade cultural, mas apresentou um contraponto: dois terços da captação de recursos para a cultura ainda se concentram no Sudeste do país. Nesta dinâmica, Resegue provocou: “a gente tem um trabalho longo de descentralizar esses recursos, de ajudar o governo a fazer isso”.

Outra pauta colocada em debate foi o estímulo à cultura no país e a forma como ela é tratada. Cláudia Leitão, diretora do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, destacou que é insustentável para organizações e para a própria cultura sobreviver apenas de editais. Em sua fala, ela incentivou que empresas pensem e fortaleçam dinâmicas econômicas voltadas à cultura, e reforçou a problemática de concentrar os incentivos culturais: “os editais monopolizaram as formas de fomento no Brasil, isso é um problema”.

Vivências na cultura também foram abordadas. Nesse contexto, Din Alves, mestre artesão de arte popular brasileira, expôs a falta de estímulo para que os próprios artistas divulguem seu fazer cultural e reconheçam o valor de suas artes. “Vejo que faltam eventos para mostrar nosso trabalho, porque a gente consegue fazer, mas fica escondido. A gente faz, mas às vezes falta oportunidade para mostrar”, reforçou Din.

A valorização da cultura não apenas pelo ISP, mas também pela sociedade como um todo, foi um ponto recorrente entre os participantes, assim como o fortalecimento do terceiro setor. Mariana Campanatti, diretora-executiva do Instituto MOL, destacou que “a gente só cuida e valoriza o que a gente conhece. E, por conta da nossa história de colonização, a gente não conhece a nossa cultura”, pontuou, convidando a plateia a entender o poder transformador da cultura.

Por se tratar de uma mesa que discutiu o poder da cultura no âmbito da filantropia, não poderia faltar a presença da arte. Além da apresentação do trabalho de Mestre Din Alves, o artista Parayba Medeiros iniciou sua fala com um repente que trouxe informações sobre sua vida e trajetória. A apresentação animou e prendeu a atenção de quem estava presente. Em sua fala, Parayba, o “Mágico da cultura popular”, destacou que a cultura precisa de mais apoio para se tornar ainda mais potente e se perpetuar ao longo do tempo: “Não compreendem que, com pouco investimento, nós conseguimos muito. Não compreendem que com pouco se faz uma escola.”

Ampliar, redirecionar e continuar recursos amplia a capacidade de consolidação de projetos financiados pela filantropia

Fonte: GIFE

Uma das maneiras de ampliar canais de participação é reposicionar as organizações negras para o centro das decisões

No segundo dia do 13º Congresso GIFE, o painel Desconcentrar para quem? Organizações negras no centro das lutas e às margens dos recursos reuniu especialistas para debater ações concretas para trazer as organizações negras para o foco das estratégias de filantropia. A mesa refletiu, ainda, sobre a repercussão das diferenças dos territórios na elaboração de ações e no alcance de captação de recursos dentro da atual conjuntura nacional e internacional.

Mediado por Iracema Souza, gerente de Conhecimento e Advocacy do Fundo Agbara, o debate trouxe luz à necessidade de se discutir como esse redirecionamento impactam as organizações. “Onde está a opinião e o posicionamento da filantropia brasileira diante do contexto que estamos vivendo?”, indagou.

Também nesse sentido, os palestrantes debateram como a manutenção do repasse de recursos favorece o prosseguimento e a maturação de ações e projetos. Ligia Batista, diretora-executiva do Instituto Marielle Franco, trouxe reflexões pertinentes sobre a atuação da filantropia brasileira, enfatizando a importância da continuidade nas estratégias para que haja transformação efetiva: “Não existe impacto se não houver estratégia consolidada.”

Além disso, ela abordou como a origem da riqueza da filantropia deve ser considerada ao se pensar nas formas e destinos de sua distribuição. “[Verificar se] a riqueza vem da desigualdade, se vem da desigualdade racial. O recurso tem que ir inclusive, enquanto medida de reparação.”

Olhando para o topo das organizações, Marcio Black, diretor do Instituto Beja, refletiu sobre o poder e a autonomia que as pessoas negras possuem ao ocuparem esses espaços: “Por mais que tenhamos pessoas negras em cargos de lideranças, a caneta não está na mão, a tomada de decisão não está com ela.”

Já Dandara Rudsan, do Coletivo Amazônico, trouxe a perspectiva da diversidade de pautas que há dentro da temática racial. Segundo ela, no movimento negro, a agenda é ampla. “Ela começa a partir do racismo, da cor da nossa pele, mas depois temos camadas”, aprofundou.

No sentido de redirecionar e ampliar as formas de se fazer filantropia e destinar os recursos do investimento social privado (ISP), Victor Hugo Neia, diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen, tratou da importância de abrir mão da burocratização. De acordo com ele, é preciso entender o  que deve ser o foco, ao falar de impacto e filantropia. “As fundações não existem para prestar contas com o compliance do grupo, mas sim com o Ministério Público e a sociedade civil”, explicou.

O debate  reforçou a importância de a filantropia não descontinuar estratégias desenvolvidas e compreender os diferentes contextos em que as organizações estão inseridas. Isso contribui para alinhar expectativas, avançar no debate público e permitir que mais pessoas vivenciem não apenas desafios, mas mudanças concretas.